4 de nov de 2008

“todo grande amor só é bem grande se for triste...”

(Título: Eu não existo sem você, Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
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Ando pela rua, sozinha, cabeça baixa. Os óculos escuros não são para o sol, são apenas para esconder o olhar vazio, que se perde ao se prender aos lugares que estão pintados das lembranças que cheiram a tinta fresca. Ando, fico andando por aí à toa, mas ando, nem sempre em frente, nem sempre em busca de alguma coisa nova, sem nenhuma expectativa qualquer de algo que me surpreenda. Eu ando para tentar esquecer uma face, para dar ao vento a difícil tarefa de me trazer um cheiro diferente, para quem sabe me topar com alguém novo que venha me trazendo o amor nas mãos. Mas como se dá um passo a frente quando se está amarrado a vontade de ficar? Dou voltas pelo quarteirão e vejo o pé de jacarandá que ele amava me estender um caminho lilás de saudades para atravessar – lembro dele; passeio pela praia e meu rastro tão sozinho se afunda na areia - lembro dele. Ir na Avenida Paulista como turista de uma cidade conhecida e comprar bijuterias sem nenhuma opinião – lembro dele. Se subo no Cristo, se olho a Guanabara, se compro pão, se uso aquele vestido, se leio um livro de Neruda, de Ruiz, de Lispector, se atrasa o vôo e não tenho consolo ou alguém para me irritar ainda mais – lembro dele. Até quem me vê fazendo compras no mercado ou esperando vaga no estacionamento sabe que sinto a falta dele. Ele deveria se mudar para Paris, Havaí, Xangai, Moscou ou qualquer lugar bem longe, e que levasse com ele todo o perfume e as cores dos jacarandás, o Cristo, a Guanabara, a Avenida Paulista, todos os lugares que pisamos, que soltamos palavras de um futuro que não chegou. Melhor, talvez eu devesse ir para o Havaí, Xangai, Moscou, quem sabe Indonésia ou Polinésia Francesa, e deixasse tudo aqui em seu devido lugar, lá nesses lugares não tenho lembranças para me topar, quem sabe eu até abandone os óculos escuros e comece deixar o olhar se soltar e se prender a um novo encantamento fadado a terminar, para eu fugir de novo, talvez para Dublin, Califórnia, Afeganistão. Levar uma vinda inteira para aprender que um amor não se pode esquecer, nem aqui, nem na China. Só Deus mesmo é que sabe aonde isso começa e sabe-se lá quando termina.


(Cáh Morandi)

Um comentário:

Tatiana disse...

"Talvez eu devesse ir para o Havaí, Xangai, Moscou, quem sabe Indonésia ou Polinésia Francesa, e deixasse tudo aqui em seu devido lugar, lá nesses lugares não tenho lembranças para me topar"

A.D.O.R.E.I