21 de out de 2011

"O telefone tocou, na mente fantasia..."


(Título: Tarde Vazia, Scandurra & Gaspa)


Muitas vezes a gente não sabe porque o telefone não toca. Pensamos que entendemos errado ou que a hora era outra, ou até mesmo que passamos o número errado, mas na maioria das vezes o telefone só não toca porque não podemos entender o que se passa do outro lado da linha.

Incompreensível, não é? Justamente por isso.

Uma ligação pode mudar tudo no meio da monotonia ou pode ser uma calmaria enquanto esperávamos um furacão. Não dá para prever o que irá acontecer se atendemos no primeiro, no segundo ou no terceiro toque, pois em um só segundo podemos mudar de idéia, de humor, de planos e o segundo errado na ligação certa pode mudar todo o destino.

De qualquer forma, não fique ocupado demais, nem de menos, nem tire seu número das listas telefônicas, e se for ligar não coloque número oculto.

Te ligo, se quiser não atenda, mas deixe tocar.


Cáh Morandi

28 de abr de 2011

"Quero as janelas abrir para que o sol possa vir iluminar nosso amor..."

(Título: Janelas abertas, Tom Jobim e Vinícius de Moraes)


O amor seria somente mais uma palavra. Uma palavra como outra qualquer: cadeira, livros, horizonte ou paralelepípedo. Uma palavra perdida em um dicionário. Uma palavra imprecisa em uma canção. Uma palavra escrita numa placa no deserto. O amor poderia ser o deserto ou a canção, porque às vezes, nos dá uma espécie de sede, em outras, um carinho ao pé do ouvido.

Quem sabe o amor passasse despercebido, em silêncio, tão em calmaria que nem distraísse minha atenção das outras coisas bobas do mundo. Quem sabe o amor chegaria, como chegam correspondências de promoções, que a gente amassa e joga fora. Quem sabe o amor viesse como uma rosa entre as outras rosas em buquê, e olhando de cima, é tudo tão igual. Quem sabe fosse uma rua desconhecida, um creme para as mãos, um jeito de sorrir ou olhar, uma mania, um prato árabe, uma pizza, um peixe que vive só no Mar Egeu, uma marca de xampu ou de relógio, um sabor de suco, uma fruta. Embora para tudo, seja todo o sentido.

Poderia sim ser quase nada, se não tivesse sido tudo. Poderia não ter significância ou significado, senão fosse você. Senão fosse seu riso me chamando para dançar no meio do mundo, senão fosse seu nome se espalhar por todos os cantos dos meus pensamentos e os poros da minha pele, senão fosse o seu olhar na primeira vez que te vi, senão fosse seu ar de segurança, senão fosse sua simplicidade em falar. Se por um momento só, você não tivesse sido tão profundo. Se por um momento só, não tivesse sido você, teria sido tudo inútil, teria sido tão em vão.

O amor vem depois de você, e as palavras vem depois do amor. Tão clichê, tão bobo, quando a gente quer dizer que está apaixonada e sente tão amada a ponto de esquecer o resto do mundo. Tão tola nossa forma mais planejada para não ser amarrada pela paixão. Não vale nada toda razão quando o coração desperta.

O amor seria sim como qualquer palavra... se não fosse sua chegada.



Cáh Morandi

15 de mar de 2011

"No ardor de tantos abraços, caíram palácios, ruiu um império, os nossos olhos vidrados de mistério..."

(Título: Amando sobre os jornais, Chico Buarque de Hollanda)


Que o olhar que me paralisa, paralisasse você também no tempo. Em qualquer tempo que não fosse o agora, em qualquer tempo que fosse como um antes, de um depois desnecessário. Queria ainda poder me sentir imóvel quando seus passos vinham desenhando o destino pelo corredor, queria sentir o arrepio da porta se abrindo, a felicidade de ouvir teu sorriso alarmando a casa, atrapalhando o filme, dispensando as canções.

Queria te guardar imóvel no movimento. No movimento das suas mãos me dedilhando as costas, o movimento dos seus lábios tatuando a nuca, o movimento que timbra o vento nos seus cabelos, o silêncio do mundo no seu piscar de olhos, o mover sua sombracelha que formavam ondas perfeitas na sua testa, seus dedos que tocavam Chico na minha cintura, sua voz em movimento era como um chamado de algum lugar. Eu não queria mais voltar.

Sou boba tantas vezes. Parei tanto tempo presa em você. Ficava extasiada, alucinada em te observar ganhando o mundo sem sair da cama. Eu te achava “o cara” e pensava: “puxa, que sorte a minha”. Acreditei até no amor, na paixão e nas outras coisas que dispensam uma lista de razões. E me bastava te ver, bastava você rir, e pegar minha mão às vezes. Eu me apaixonava na mesma medida que me iludia.

Ilusão. Não que ilusão seja ruim. É preciso de vez em quando, muito de vez em quando. Precisamos nos auto-iludir. Senão houvesse essa possibilidade de ilusão, talvez eu e você não tivesse acontecido. E acontecer pode ser bom.

Vale que aconteça. Vale o olhar que paralisa enquanto o mundo gira para nos despertar.



Cáh Morandi

11 de nov de 2010

"O nosso amor se transformou em "bom dia!"..."

(Grand' Hotel - George Israel, Paula Toller e Luis Farias)


Antes de qualquer coisa não pense que isso é um mérito seu, não te esquecer foi minha escolha. Honro minhas lembranças, não desprezo o tempo que dediquei para alguém, não ignoro os poemas que li, não esqueço os sonhos que tive. Na verdade, não tem nada a ver com você, tem a ver com nós. Eu e você separados somos planos diferentes.

Se isso te faz feliz, não irei te esquecer. Não irei jogar pela janela os minutos que construi olhando para você, nem vou apagar tua voz abafada debaixo das cobertas das madrugadas, não vou trocar a cor da sala que escolhemos, não vou mudar os móveis de lugar para tentar acabar com o espaço que sobrou na sua ausência.

Quando penso em você quase nada abala. Dói mais quando penso em nós. E quando penso em nós ainda te amo, por isso não vou trocar teu nome seguido de amor no telefone, pois ainda me incomoda a possibilidade de que encontre alguém melhor, porque ainda me desconcerta a idéia que você possa se abrir para outra pessoa. Mantenho seu nome entre meus favoritos, ainda seu sobrenome assina com o meu no final.

Você parou para pensar que tínhamos quase tudo para sermos felizes? Mas quase ainda era muita coisa na nossa história. O quase incluía o descuido, a pressa, os outros compromissos menos necessários, nunca lembramos da velha frase de que o urgente não é o mais importante. A culpa não foi minha, não foi sua. A culpa foi nossa, veio depois, veio quando não entendemos que estavámos juntos não para dividir, mas para somar.

A felicidade brilha, resplandece no vocabulário. Tem lugar garantido no dicionário, nos sonhos, nos projetos de vida. Sempre pensamos na felicidade como um dia, e não no dia em que nos encontramos e a paixão nos dilacerou. A gente esquece do valor das coisas. Mas eu não vou te esquecer, uma conquista deve ser guardada, pode ser uma pessoa inteira, pode ser um minuto em que os olhos se cruzaram. Cada um sabe o que é valioso para si.

O que conquistei de você me pertence.



Cáh Morandi

24 de out de 2010

"Qual é o nome que eu nunca chamei?"

(Você existe, eu sei - Biquíni Cavadão)


Podemos esperar. Esperar pelas coisas boas, pela esperança, pelo planos que temos. Podemos esperar porque nada mais nos é possível além disso, apenas preparar o terreno, persistir no foco, acreditar incansávelmente na possibilidade de que os sonhos serão em breve, ou não, realidade.

Espero pelo vôo, espero sentada na sala de embarque, monótona e silecionsa. Muitas pessoas, destinos diferentes, vidas em contraste, em direções inemagináveis. Em breve embarcaremos no avião, como em breve embarcarei para aquilo que todo dia espero ser a hora.

Espero por você, espero tão confiante, tão certa de que você, em algum lugar está procurando um caminho para me encontrar também. Espero por você quando abro as cortinas da janela de manhã e imagino que você está prestes a virar a esquina, e de repente acontecer alguma coisa diferente em nossas vidas. Espero por você quando luto para abrir um vidro de conservas. Espero por você se chove e os trovões agora caem do teto do meu quarto. Espero por você se preciso de uma carona para Búzios ou Belém. Espero por você quando passo a chave na porta e fico observando os carros, que não param. Espero por você se Maria Bethânia canta repentinamente no rádio, na letra que diz "quero ficar com você, e é tão fundo que posso dizer que o fim do mundo não vai chegar mais...". Espero por você quando vejo os casais planejando o futuro, e veêm os filhos chegando, e imagino que se pelo menos eu te conhecesse. Espero por você na hora do sufoco, na hora do cansaço, na hora que os pés precisam das mãos, na hora que o corpo precisa de um abraço, na hora que os cabelos precisam de um carinho, na hora que o pescoço precisa de um beijo, na hora em que a boca sente sede, na hora que uma voz me chama e o chamado não é teu. Preciso de você e deixo o coração à deriva. Preciso de você e faço da vida uma sequência de vazios. Preciso de você e não sei aonde te encontrar. Preciso de você e me preparo todos os dias para te esperar. Preciso de você e arranjo formas de sobreviver dia após dia até tua chegada.

Espero, duramente espero, para descobrir teu nome, as cores da tua roupa, o lugar que você mora, o sonho que segue, o momento que mais gosta de lembrar. Espero e reservo restaurantes. Espero e programo viagens e roteiros. Espero e faço compras para o fim de semana. Não há mais nada além da espera e que apesar da demora, sei que você virá.

Você virá num dia de céu claríssimo e tão azul, tão branco, num domingo de primavera repentina. Você virá e antes poderei ouvir teu riso, até tua face se desfazer da distância. Você virá e eu esquecerei de todas as palavras que decorei para essa hora. Você virá e eu sofrerei um terremoto. Você virá e tatuaremos uma frase que começará na alma e terminará no beijo. Você virá e eu não quero nenhuma outra promessa, eu só quero tua presença, acordar e ver o lençol desarrumado do outro lado da cama. Você virá e aumentaremos a lista de nomes e filmes. Você virá sem eu te conhecer, sem saber que a tua pele contrasta com a minha. Você virá e eu que não sei nada de você estarei prestes a me arrepiar com a tua primeira palavra. Você virá com o teu nome enquanto pesquiso todos os sobrenomes para saber se o teu rimará com o meu no final.

Espero e é para isso que tenho dedicado parte da vida. Espero, até aqui é tudo que tenho para contar.

Te espero sempre, sempre, sempre.

Você virá. Sei que virá por uma dessas avenidas com nomes de poetas, distraídos um em direção ao outro, como todo encontro, como todo amor acontece.

Se perca. Me perco para nos encontramos.



Cáh Morandi

8 de ago de 2010

"quando penso em você, é quando não me sinto só..."

(Pensando em você, Paulo Moska)
.
.
Queria aprender mais da vida, que o amanhã estivesse certo, que a dor fosse passar, que o amor que me rodeia iria me levar a cura, Andrei também. Só o tempo nos ensina a imprevisão das coisas, a impossibilidade que não nos damos conta, os atalhos, as placas que entendemos errado pelo caminho.
Andrei, eu também tinha esperança. E ainda a tenho, lá no fundo, quase escondida, timída e triste, quase se foi quando me deparei com tua ausência. Minha esperança quase se anula, pois ela não te salvou e nem te trará de novo para que tua mãe te embale, para que te prepare para a escola de manhã, que te compre presentes, para que vele teu sono. A esperança que falhou contigo, também deixou uma falha no coração de teu pai, ele não pode ser teu herói, embora te contasse tantas histórias, embora quisesse te proteger de todo mal e ainda te carregar nos ombros para que não cansasse.
Mas sabemos, de alguma forma silenciosa e muito certa, que tu jamais desistiu. Fosses uma das pessoas mais corajosas que conheci. A leucemia não te assustou, e quem te levou de nós foi um propósito bem maior, que um dia quem sabe entenderemos, e o colocaremos no lugar da dor e da saudade. Nunca achei uma luta muito digna para um menino de 13 anos. Com 13 anos teu lugar era outro. Eu com minha idade ainda tenho receio com os hospitais, mas respeitei tua morada, respeitei tua força, respeitei teu olhar que sempre foi mais seguro que os nossos.
Sempre que penso em ti , corto quilos de cebolas e meu coração se aperta. Não acho justo, não acho que tivesse que ser você. Tento esquecer, tenho abrir a janela e esperar que passarás correndo de bicicleta, que nos toparemos na padaria, ainda trago lembranças para ti das minhas viagens e conto para todo mundo que tenho um amigo, um grande amigo, o mais fiel de todos os amigos e que ele tem 13 anos e se chama Andrei.
Tua rua sempre será a minha rua e o teu riso ficará sempre soando na minha memória. O câncer, a leucemia não poderão apagar quem és para nós, não poderão confundir a lembrança que temos do teu rosto, das tuas mãos. Tenho uma saudade tão grande e não sabemos aonde colocar todos os teus sonhos.Para aonde eles irão Andrei? Aonde colocaremos tanto que ficou da tua vida? Fazes uma falta. Principalmente nos domingos, principalmente quando me falta algo de doce e de alegre.
Guardo meu coração para depois, ainda não sei o que fazer com a parte que era tua.
.
.
Cáh Morandi

4 de ago de 2010

“... a gente faz o que o coração dita, mas esse mundo é feito de maldade e ilusão."

(Saudade da Bahia, Dorival Caymmi)
.
.
Quando nos despedimos era a hora certa. Você esperou meu choro, meu desespero, minha súplica e minha ligação, esperou por coisas que não vieram. Você estava pronto para me consolar, para dizer que eu tinha que ir em frente e deixá-lo, mas não esperava que eu já conhecesse o caminho, que já tivesse partido bem antes do adeus.
Preciso te contar o quanto estou incrívelmente feliz, o quanto o meu amor próprio superou as madrugadas longas, o quanto que me descobrir fez te esconder na memória, o quanto me permitir me fez mais interessante, o quanto fantástica posso ser e as pessoas que posso ter ao redor, que posso escolher e não ser a escolha. Eu escolho você. Te escolho para ser quem irá ficar me esperando do outro lada da linha, da ponte, da avenida. Te escolho e te coloco do lado oposto da minha opção pela alegria.
Te escolho não por maldade, por vingança ou por caridade, mas porque você me ensinou muitas coisas, e coisas boas, coisas que nem um inimigo me ensinaria. Por causa de você conheci meus limites e os desaprendi, e hoje não me permito a nada que seja menos do que a felicidade ou mais do que a sensatez. Você me ajudou a me tornar uma mulher mais forte e menos tempestuosa. Me ensinou a não ser cruel, quando me magoou. Me ensinou a como não permitir o descaso, quando te contava um sonho. Me ensinou como não enganar, quando optou por outros planos. Me ensinou a descobrir o quanto posso ser amada, quando teu cuidado era de outra face.
Hoje meu corpo tem outras mãos espalhadas, hoje meu caminhar é um convite, hoje meu olhar é uma armadilha, hoje minha lembrança é uma tortura, hoje minha companhia é para poucos, hoje meu cheiro é um abismo, hoje meus dedos são violinos, hoje meu riso é a felicidade, hoje meu plano aceita ser surpreendido. Hoje apenas me permito a certeza do que a incerteza me impõe.
.
.
.
Cáh Morandi

26 de jul de 2010

"Meu coração não se cansa de ter esperança..."

(Coração Vagabundo, Caetano Veloso)
.
.
Demorei muito tempo para começar. Demoramos demais para perceber que é preciso descobrir o começo, algum começo. Nos atrasamos e aí lá se foi milhões de cartas, de erros, de um sim quando era não, e de um não que talvez pudesse nos iniciar. As outras pessoas também não sabiam, e mesmo se desconfiassem saber, não poderiam indicar um caminho que só nós mesmos seremos capazes de desvendar.
A vida é mata fechada, quem está vindo agora também está vindo para descobrir algo de novo. Ainda há muitas ilhas, ainda há um deserto infinito no coração de alguém. Ainda temos medo do escuro, e penso que cresce conosco, silencioso e sempre presente. Nosso caminho é feito do que trouxemos desde muito tempo, desde o intervalo, desde um adeus que não sabíamos, de uma solidão que nos abraçou sem que percebessemos.
Trouxemos a solidão desde que guardamos o primeiro bilhete de amor, desde que o primeiro beijo nunca se repetiu, desde que aprendemos a somar um com um e descobrimos que dois era melhor. Não aprendemos a ser sozinhos, nem tão pouco a sermos completos. Sempre nos faltará alguma coisa, sempre teremos alguma coisa ausente e tão doce que doerá no sorriso. Só a vida nos ensinará que para sermos mais, precisaremos nos dividir. Ser metade sempre será mais completo do ser inteiro.
Você deve se achar o máximo, deve se achar a estrela do céu de Hollywood e no fundo você não sabe nada, não sabe nem quem é você, nem quem você está prestes a se tornar. Na verdade você está longe, mas eu entendo, te compreendo, precisamos dilacerar o coração primeiro, entregá-lo a alguém que irá machucá-lo e devolvê-lo com um rosto tão leve que o aceiteremos de volta, e não importa se demoraremos a outra metade da vida tentando juntar pedaço por pedaço para enfiá-lo no peito novamente, o entregaremos de novo mais cedo ou mais tarde, inocentes, o pegaremos nas mãos e deixaremos alguém o levar. Só muito tempo depois é que compreendemos o amor, só depois que o peito tiver sido aberto muitas vezes, de termos escritos muitas cartas, de termos encontrado muita gente, depois que do coração só restar uma ferida, aí estaremos prontos. Pois o amor virá depois que se anular a felicidade que julgamos. Deixamos o amor chegar quando estivermos em milhões de pedaços, para cuidar, para curar, para nos ajudar a construir.

.
.
Cáh Morandi

6 de jul de 2010

"Um dia em mim essa aflição sossega, more comigo e traga o seu amor..."

(Por que você não vem morar comigo?, Chico César)
.
.
Não podemos compreender nada se o mais raso que estivermos dentro daquilo, não seja no fundo. Qualquer coisa que avistamos incluir em nossa vida é para ser profundo, a ponto de que ali possamos mergulhar. Não acredito em nada diferente disso, e é por isso que não desvio, mas seguro o olhar.
Ele não entende e a resposta vem errada. A resposta não vem. Mesmo com todos os sinais e simpatias, mesmo com tantas coincidências premedidatas. Será que pensa que realmente ligo por engano? Será que não percebe que o meu sangue ferve e aquece todos os vulcões? Será que não vê que o meu sorriso insinua e conversa até nascer um beijo para que possua? Será que não reparou que escureci o cabelo para constratar com seu travesseiro? Será que não sente que meu aperto de mão inseguro é um pedido de casamento? Será que não percebe que os finais dos nossos ancestrais dizem que somos nós? Será que não pensa sobre as possibilidades e em alguma realidade me imaginar na sua vida? Será que gosta de sorvete de creme? Será que deixaria eu ficar por um dia dentro do seu quarto? Será que começaria devagar, começando pelo cangote ou iria avançar? Será que trocaria um presente que alguém demorou meses escolhendo para lhe presentear? Será que aceitaria um vida sem muita calmaria e um filho que virá? Será que deixaria eu colocar na sua estante uma fotografia do que seria se eu e ele fomos nós? Será que atenderia o telefone de madrugada? Será que pensaria em amar alguém tão apaixonada? Será que se doaria para alguém que não tem quase nada? Será que apostaria um futuro por alguém que acabou de esbarrar? Será que o sorriso que tem já é de alguém ou de outro lugar?
Quando entenderá que quero estar dentro, difusa com sua vida e seu sonhar? Quando entenderá que agora ele não é só alguém que encontrei nestas idas e vindas e não é só uma história para um dia lembrar? Quando notará que meu desejo não é só para agora, que só quero ir lá fora se vier me acompanhar? Quando entenderá que não é um estranho, um conhecido, um amigo que só encontro se a coincidência deixar? Quando estará comigo além de um breve olhar? Quando seu corpo se perderá com o meu? Quando eu vou poder entrar na sua rotina? Quando vou deixar das indiretas para te acordar?
Quando vou poder mergulhar, ir no fundo, no teu mais que mais profundo e nunca mais voltar?
.
.
(Cáh Morandi)

23 de jun de 2010

"Você vai me sorrir, você vai se enfeitar e vem me seduzir..."

(Você vai me seguir, Chico Buarque de Hollanda)


Não que fosse impossível, mas como amar alguém que não ouve a mesma canção? Como amar alguém que não decifra o que há na música, que não entende só a melodia, que não vê a poesia na letra e se emocina? Como não perceber as possibilidades de um amor louco ou breve na canção que se descreve? Como não precisar quando a voz vibra de saudade ou de dor? Não se ama alguém que não ouve.
Não se planeja uma vida com alguém que não ouve a mesma canção, não se preocupa com a poesia, que não a entende, nem a sente, nem a perpetua. Vida sem poesia, não sobra nada, nem amor para o próximo dia. Não se ama alguém que não tenha um livro de Lya Luft, um cd do Chico ou de Maria Bethânia, um quadro na parede e um amor do passado. Aliás, não se ama alguém sem passado, sem história, sem uma saudade de alguma coisa que até quando você olha nos seus olhos sente arder. Quem tem saudade, tem alguma coisa boa que vem desde muito tempo. Não se ama alguém pronto, alguém preparado, alguém seguro de tudo. Só se ama alguém que ainda podemos ver crescer, crescer junto com o que também queremos ser.
Não se entrega um sonho nas mãos de alguém que não ouve a mesma canção, de alguém que não ocupa o teu pensamento todo, e não te retribui em dobro o gesto e o riso. Não se ama alguém que não lê jornais, que não come besteiras, que duvida no toque do telefone. Não se ama alguém que não conhece teu perfume, teu prato e teu lugar preferido. Que não percebe que teu temperamento não é teu signo, que não acredita no que você daria a vida. Não se ama alguém em quem não se confia de olhos fechados e de coração aberto.
Não se apaixone por alguém que não ouve a mesma canção, nem goste de matinês e cafeterias. Não se ama alguém que não tenha plantas em casa, não use tapete na porta de entrada e não tenha talheres de inúmeras cores. Não se ama alguém que derrete na chuva e se torra no sol. Não se ama alguém que não viaja, que não planeja, que não tenha expectativas, nem que sejam mínimas e tolas. Não se ama quem fala pouco, quem gesticula antes da palavra e que não cante junto com a música.
Não se ama quem nunca quebrou um copo, quem nunca esqueceu as chaves, quem está satisfeito com a cor da sala, quem não tem compromisso, quem perde a hora, quem joga extratos fora, quem se muda toda hora, que não tenha manias, que não acorde com o rosto amassado de manhã. Desconfie se não te olhar nos olhos, se não te der segurança no dar das mãos, se mudar de assunto no domingo de manhã e principalmente, com toda certeza, desconfie, mude, termine se não ouvir a mesma canção.
.
.
(Cáh Morandi)

4 de mai de 2010

"...abrirmos a cabeça, para que afinal floresça o mais que humano em nós."

(Tá Combinado, Caetano Veloso)
.
.
O começo sempre será difícil. Conhecer o novo, sair da zona de conforto e de segurança. Ir além, ir após. Começar é uma tortura para chegar em algo que será extramente ótimo ou não. Começar é dar o primeiro passo, não vacilar. Começar é abrir a janela de manhã, respirar bem fundo e saber que daqui meio minuto os abençoados problemas do dia irão surgir. Começar é trocar o pão pelo biscoito, o frito pelo assado, descobrir o gosto da rúcula aos 23. Começar é saber que cebolas são disfarces para quem tem vergonha do choro, e que as piadas sem graça é a desculpa de quem a tem como o único motivo para o riso. Amores virão depois das paixões, palavras certas sempre virão depois das erradas, a resposta certa virá quando o ato errado foi cometido, televisões novas estragam e garantias são perca de tempo, o telefonema mais esperado irá chegar enquanto estamos tomando banho com o rádio no último volume, as cartas não chegam, nem os e-mails, nem a esperança, as taças caras quebram como os copos de extrato de tomate, analfabetos ganham o país e poemas de Alice Ruiz passam sem aclamação. Começar pode ser aos 17. Pode ser aos 30. Pode ser aos 85. Começar pode ser ao som de Marvin Gaye ou no apaixonar de Chico. Debaixo de uma mangueira, debaixo de uma chuva torrencial. Começar em Porto Alegre, pousar em Curitiba, recomeçar na Avenida Paulista, dormir no braços de Cristo e “passar uma tarde em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã...”. Começar é de repente perceber que já se está na metade do caminho. Começar é dar mais valor ao tempo que temos e descobrir como é uma tortura o tempo que não temos. Começar é dar possibilidade de que alguma coisa aconteça aqui ou em Amsterdã. O beijo é o começo do amor. O amor é o começo do plano. O plano é o começo do caos. O caos é o começo da família. A família é o começo dos herdeiros. Os herdeiros são o começo do futuro. E o futuro já não é mais tão perto e nem tão para a gente. O futuro, aparentemente é o fim que nos espera. Espera para começar.
.
.
Cáh Morandi

13 de nov de 2009

"Vem olhar esta noite amanhecer, iluminar..."

(Canção do Amanhecer, Antônio Carlos Jobim)
.
.
Meu tempo nunca foi esse, sempre quis estar mais perto do minuto que está por vir. Ansiosa, sedenta, apressada. Sempre estive na frente, até nas filas do colégio. Na família não poderia ter sido diferente: primeira filha, primeira neta, primeira sobrinha. Na época em que meus pais e tios condenavam as tatuagens, fui a primeira dos novatos em aparecer com uma enorme no meio das costas. Nada de contrariar, de colocar lenha na fogueira, mas se algum de nós tinha que quebrar aquela barreira mais cedo ou mais tarde, então que fosse eu. Sou da opinião de que a vida não reserva lugares para segundos colocados, gente desanimada e conformada para mim não serve. É importante ser ambicioso, é importante desejar grandes coisas. Quem pensa pequeno sempre alcançará coisas pequenas, e isso é fato. Grandes sonhos não fazem mal a ninguém, desde que você não use estratégias não tão justas para alcançá-los.
Sempre fui a primeira, sempre o passo adiante, até mesmo para os abismos. Afinal nenhum caminho é feito só de riso. Tem que chorar muito, tem que pagar muito preço, levantar as quatro, dormir as duas ou não dormir. Tem que ter o felling, a ginga, a vontade inabalável (sim, inabalável) de chegar aonde se quer. Não me arrependo e também não mudo. Com 22 anos muitos dos meus objetivos intermedários já estão acontecendo, e com 30, meus queridos, pode ter certeza que vou estar muito bem. E muito bem para mim não quer dizer “muitaaa grana”, mas além dela, e principalmente amada, amando, curtindo a gravidez ou meu filho, mudando a decoração da casa sem culpa do aperto, conhecendo gente interessante, aumentando a minha biblioteca que iniciei com os livros da infância.
Paguem o preço que for, não abro mão de nada do que quero para mim. Não abro mão de nada que possibilite a mais breve e minuscula chance de felicidade, de qualquer coisa que me soe a chance de um novo amor chegar. Não me fecho. Me abro “como um brilhante que partindo a luz, explode em sete cores, revelando então os sete mil amores, que eu guardei somente pra te dar...”
.
.
Cáh Morandi

13 de jun de 2009

"... o sol desperta a cidade, e eu planto mais perguntas que respostas."

(Mais perguntas que respostas, Leoni)
.
.
É uma pena que muitas de nossas convicções só se tornem mais claras na medida que chegamos a maturidade. Cheguei até aqui e descobri que estou de mãos vazias. Que realmente as coisas são mais difíceis do que eu supunha, que realmente as responsabilidades chegam, que realmente o tempo passa mais rápido do que poderia notar. Envelhecer me tornou mais bossa nova, envelhecer me tornou mais próxima de um manual de instruções. Deixo de ser um monólogo, preciso de diálogos com extrema urgência, necessito de pessoas, de histórias, de experiências, desse contato mais pessoal que minha “auto-adolescência” não me permitiu.
Certas vezes, eu procurava coisas pequenas para me ocupar, coisas como conchinhas quebradas na beira do mar , como os finos raios de luz que atravessam as folhagens, coisas como decidir entre brincar na calçada ou na grama, como escolher a cor da roupa do personagem dos meus desenhos. Hoje tenho certeza absoluta de como aquilo era realmente importante, de como eu deveria me ocupar e preocupar com meus pequenos gestos. Voltar me faria criar lembranças mais bonitas, me faria mais preocupada e valorosa com o tempo.
Estranhamente, crescer é ter uma vontade enorme de encontrar as crianças que um dia fomos. Crescer tem mais a ver com se encontrar, do que se descobrir. Crescer é saber que a única magia que nos ajudará a alcançar os sonhos, é acordar às seis e dormir à uma. Crescer, no fundo, é diminuir nossa sensibilidade, nossa percepção.
Sinto até hoje a falta de alguma coisa. Qualquer coisa que não sei o que é. Já senti melhor o vento, já fui mais atenta com os livros, já tive uma letra mais bonita, já tive mais tempo para os amigos, já fui menos chata com a comida, já tomei refrigerante sem preocupação, já andei muito de pés descalços, já corri mais do que meu fôlego. E viver não me matou. Hoje me tornei tão cuidadosa a ponto de ser chata, a ponto de colocar cautela na frente da emoção. Hoje tudo tem que ser planejado. Hoje nem pensar em andar descalça ou tirar alguns minutos para me preocupar com raios de sol. Meu jardim é mais do jardineiro do que meu, meu jardim me vê por trás das vidraças todas as manhãs. A vidraça impede de nos tocarmos.A vidraça é a barreira intransponível entre meu relógio e o cheiro da grama amanhecida. Sinto falta do meu jardim. Sinto falta de quem eu era quando estava no meu jardim.
.
.
Cáh Morandi

15 de mai de 2009

"E eu que pensei que o tempo fosse amigo..."

(A distância, Toquinho)

"...again my heart sits upon a wall. Now from here where do I go?
I can't decide, I do not know..."
(Lawrence H Pfaff)

É ruim sentir falta, não é mesmo? Sentir falta de alguém que a gente não voltará a ter. Falta de alguém que a gente nem teve ainda. Falta de uma comida que a gente goste muito, mas que só tem num bristô na rua Brighton Beach, no Brooklyn, em New York. Falta da neve que caía no dia 07 de dezembro, de um ano que parecia não nos importar. Falta de um sol de dezembro, em pleno calor de quase verão brasileiro e se fazia planos de estar junto com aquele alguém a vida inteira. Falta de esperar o shopping abrir, para andar voltas sem gostar ou levar coisa alguma. Sentir falta da camiseta que de tão velha, teve que ser abandonada. Sentir falta de um lugar que não fomos, de alguém que não conhecemos, de uma vida que não optamos. Sentir falta dos dias que não irão voltar, do tempo que não poderemos repor, da nossa energia da juventude, da inocência que não passou do primeiro amor.
Os planos é que acabam com tudo, porque estão incluídos com todas as coisas que perdemos quando um amor se vai, quando os dias passam tão depressa que não percebemos, quando a sabedoria chega sem notarmos que nossos "vinte e poucos" já eram. A sensação de dor se torna maior, a perda se torna maior, as noites teimam em ser mais longas, e a ansiedade de queremos fazer tudo ao mesmo tempo nos atravessa. Devíamos viver sem perspectivas para o futuro, sem imaginar, sem criar demais, sem planejar muito e assim, quem sabe, viveríamos com mais intensidade os momentos que nos são permitidos. E as lembranças, no fim, ficariam mais vibrantes, mais detalhadas.
Sinto falta também justamente disso: de não conseguir arquivar as memórias com todos os detalhes. Memória devia guardar não somente “male mal” a imagem, mas também o cheiro, o gosto, o tato, o vento, o peso. Lembrança devia ser coisa mais viva, mais real, mais palpável, um quadro com a tinta fresca que não tem o direito de secar. Acho que não quero me conformar com as fotografias, com os vídeos, com as cartas. Quero me acostumar em poder trazer à tona, a qualquer hora, a qualquer tempo, o momento vivo, o instante exato.
Saber o caminho que passamos, é a forma mais segura de ir em frente.
.
.
.
(Cáh Morandi)

10 de mai de 2009

“Vence na vida quem diz sim...”

(Vence na vida quem diz sim, Chico Buarque e Ruy Guerra)

Para Roseane


Apesar de raro, nem sempre se leva uma vida inteira para se aprender sobre algumas coisas. Coisas, aliás, que são imprescindíveis para nos tornarmos humanos melhores, não apenas para as outras pessoas, mas principalmente para nós. Acredito que Deus tenha nos dado certos dons, ou habilidades como alguns preferem dizer. Mas a tarefa de aperfeiçoá-los dependem exclusivamente de nossa vontade e o mais difícil: no que ou quem queremos nos tornar e ser durante os anos que teremos pela frente.

Com a minha idade, não aprendi na escola, nas duas faculdades e nem na pós-graduação a me tornar uma pessoa comprometida. Aprendi a fazer cálculos, análises, marketing, planilhas, aprendi economia, o PIB, a lidar com ações do mercado, just in time, just in case, just, just...e sair de lá uma administradora. Na minha vida de escritora aprendi a sentir, aprendi a ver melhor, a dar mais importância aos detalhes, e também a cuidar melhor do meu mundo por dentro. Mas nada sobre a palavra comprometimento.

No meu novo trabalho, eu não esperava mais do que cálculos, atenção e disposição. Mas me enganei, e logo no começo. A primeira coisa que me frisaram foi justamente a palavra quase que desconhecida no meu vocabulário: comprometimento. Não me pediram se eu sabia fazer isso ou aquilo, não me pediram sobre o que aprendi na graduação, nos cursos, nos almoços de domingo com a minha família. Só me pediram tudo de uma vez só: comprometimento. Não me pediram para fazer certo, para fazer novo, para cumprir meus horários. De novo só me pediram o essencial: comprometimento.

Essa palavra mágica e que se sobrepõe sobre todos os meus conceitos em ser uma excelente profissional, e que se agrega a administradora competente em que quero me tornar. A palavra que importei para a minha vida pessoal, familiar. A palavra que se reflete também em meus escritos e meus compromissos com a cultura e literatura. A palavra que agora coloco como alicerce na construção do meu caráter e das minhas atitudes.

Vem antes do salário, do cargo, das funções, da pontualidade, do currículo, das habilidades. Na minha empresa, o comprometimento é o contrato, é a carteira assinada e todos os benefícios.


Cáh Morandi

10 de fev de 2009

"...o amor é um nobre ofício, o amor é um bom negócio."

(Viver de amor, Chico Buarque de Hollanda)

Na prática aprendi que o amor não tem laços com a desconfiança. Amor de pai, de mãe, de irmão, amor de sangue. Outros amores até podem ser, mas outros amores que são apenas afluentes do amor que nos é oferecido incondicionalmente assim que gritamos a primeira vez para o mundo. Amor hereditário, que já é dado e destinado a ser intransferível e com tendência apenas a se multiplicar por todos os anos que tivermos de vida. Ou ainda mais profundo e doloroso: amor que se tornará ainda maior, ainda mais obrigatório de se levar, se a lei da vida raptar alguns de nós na medida que o tempo se estende. Na vida e na morte o amor de sangue não se dispersa, não se confunde com outro sentimento, não ameniza, não diminui com as falhas e faltas de quem amamos. É o único amor que não exige absolutamente nada para acontecer: nós nascemos e já está ali, junto, forte, encantado.
Com o nascimento dos meus irmãos, comecei a julgar de que o amor que minha mãe tinha para os filhos, agora era divido em três, e que para mim tinha sobrado quase nada ou nem sobrado. Não, não é ciúme. Ciúme é um pouco mais mesquinho e frio do que desconfiar a falta do amor. Embora não deixe de ser tão egoísta desconfiar da força do amor materno.
Minhas certezas aumentaram quando saí de casa para morar sozinha. O trabalho e o estudo me consumiam a semana toda, e às vezes, os fins de semana. Minha mãe, apesar de não trabalhar fora, também era consumida pelas tarefas da casa, por cuidar dos meus irmãos menores e principalmente por passar horas procurando por um bom sorriso para receber meu pai todos os meios dias e os fins de tardes. Tive medo que o tempo para nós fosse se tornando o abismo entre nossas confidências e que aos poucos fossem eliminando o amor que ela tivesse por mim. Enquanto o meu amor por ela se tornava ainda maior, ainda mais admirado, ainda mais sedento do seu colo.
Em uma tarde de pleno verão de janeiro, liguei para ela avisando que iria visitá-la. Peguei a moto e não andei 500 metros até que um cara cortasse minha frente e me fizesse mergulhar contra o asfalto. Rolei até parar sentada, a primeira coisa que pedi era para que ligassem para minha mãe. Parece que foi em um piscar de olhos que vi seu carro quase que flutuando sobre a rua até o meu encontro. Quando ela me viu pulou do carro, ligado mesmo, com as roupas que as tarefas de casa lhe emprestavam, com o rosto como se fosse uma lágrima enorme. Agora eu podia chorar, as dores então vieram, as feridas ardiam e manchavam o chão do sangue vermelho bonito que herdei de minha mãe. Não tinha mais medo, minha mãe trouxe seu amor para me embalar, para fazer os primeiros e indispensáveis socorros. Estava tudo bem, percebi que se eu morresse ali, metade de minha mãe sobreviveria para levar meus irmãos por suas vidas, a outra se manteria viva para matá-la devagar e sufocantemente, para beijar sua face e lembrá-la de minha ausência.
Logo voltei para casa, sabia que nada mais me tiraria dos braços longos e cuidadosos que minha mãe me estendia. Nunca soube nada do amor, dos seus poderes, da sua grandiosidade, da sua capacidade de aproximar as pessoas. Talvez eu nunca venha a descobrir. A única que sei, é que o amor da minha mãe me salvou, não apenas do medo de morrer, mas sim de ter partido sem reconhecê-lo.


(Cáh Morandi)

10 de dez de 2008

“Dorme minha pequena, não vale a pena despertar...”

(Acalanto para Helena, Chico Buarque)

Quando quero fugir de uma situação, de uma pessoa que bate na porta, de um compromisso, de um poema, de uma ligação, dessa obrigação do se relacionar, do sorrir educadamente, do dispensar gestos e palavras que necessitam um pouco de esforço para surgirem naturalmente, eu morro. Fico morta o maior tempo que for possível. Morro algumas vezes na minha cama ou no meu sofá, outro dia dei até para morrer enquanto me encostava na janela.
Morro de cansaço, de stress, de preguiça, de fome, de vontade. Minha morte é um ato premeditado, como não teria coragem de me matar de verdade e se me arrependesse não teria como voltar, fecho os olhos. Fecho o quanto mais eu puder dos olhos, até que os cílios se abracem de tal forma que seriam capazes de nunca mais se soltarem.
Morro. A pálpebra encerra o meu contato com o mundo, cortinas do teatro, lacres propositais. Não quero nenhum contato, não quero sons, não quero pele, não quero gosto. Me coloco para dentro de mim, me recolho com cuidado de como se qualquer movimento brusco fosse capaz de me quebrar, me repartir, me retirar um pedaço que fosse importante ou que fosse precioso demais para ser perdido.
Não é dormir, não é pensar. Não quero nada na mente, não quero nenhum movimento involuntário do corpo. Respiro fraquinho, mas ainda consigo sentir o ar como uma ventania me penetrando o nariz: é isso, mais nada. O ar, essa necessidade invisível é o que me deixa no laço fragilíssimo com a vida.
Me retiro da cena, não exijo papéis, não decoro falas prontas. Morro. A sensação é mesma de quando nos colocamos por trás da janela e olhamos para fora sem ver, pensamos sem saber no quê. Imóveis. Perdidos dentro da própria casa, menores ou maiores que o corpo, às vezes fora do corpo. Perdidos de nós mesmos. Perdidos mas pedindo: “Por favor, alguém me encontre, alguém me cuide, alguém me leve para casa e me conte histórias até que eu adormeça.”
Um pedido de salvação, uma oração que dispensa o nome de Deus. Esse silêncio é meu grito. Essa forma de morrer é uma súplica para um convite para a vida.
Morro como uma fuga das coisas que necessitam de mim. Não há morte que seja heróica, morrer é uma covardia, embora que ela me exija ser forte. Uma coragem covarde, quase uma epifania. Um abismo antes do último passo até o milagre.
.
.
(Cáh Morandi)

28 de nov de 2008

"Em pouco tempo não serás mais o que és..."

(Título: O Mundo é um moinho, Cartola)
.
.
Lembro da vez que pressenti que nunca mais iria voltar. Eu estava em casa, era quase sete da noite e agosto terminava. Não lembro do dia e nem do ano, mas embora fosse uma quarta-feira quero lhe contar que foi em um domingo. Os domingos são os dias mais decisivos, mais solitários e mais delicados para se escrever. Então prefiro acreditar que fui embora em um domingo, fica mais bonito assim.
Eu tomava uma xícara de café debruçada na janela, vendo as luzes da cidade se acenderem uma atrás das outras, prédio por prédio, casa por casa, carro por carro. Ele estava no sofá mudando os canais da tevê como quem não se prende a nada. Eu lhe falava das luzes que estavam acendendo, de como era bonito e melancólico aquele laranja que vai se dispersando com o fim do dia, dando vagarosamente espaço à noite. Até que tudo foi ficando tão escuro e o café tão frio, e não reconheci mais aquele homem na sala, nem aquela cidade e caminhei perdida até um espelho: eu também já não me reconhecia.
Chega um dia em que perdemos a nossa identidade, tudo que nossos pais nos ensinaram, tudo que antes julgávamos importante, todo o nosso narcisismo, nossa vã inteligência, nosso egocentrismo, religiosidade ou falta de crença, nossos sonhos de criança, nossas bestialidades adolescentes.
Você até pensa que está sentindo medo, mas não é medo. Depois você percebe que foi apenas uma turbulência, por que você acabou de começar a voar e não vai adiantar nenhum tipo de desespero. O que vai te levar ao abismo ou ao céu vai ser aquilo que você vai decidir no início do vôo: a firmeza ou a insegurança. E depois não há mais volta.
Esteja atento, não há nenhum aviso prévio, nenhum sintoma antecedente. Quase nem vai lembrar de muitas coisas, apenas da última vez que esteve sobre a plataforma, da última vez que sugou o ar, da última luz que acendia na cidade. Sempre será assim, fazemos as coisas de forma diferente, quando as fazemos a última vez.
Há apenas um dia decisivo em toda nossa vida: aquele em que optamos por nosso futuro. É o dia do vôo. Tudo que vivermos depois da escolha e do salto, será nossa vida inteira.
.
.

(Cáh Morandi)

23 de nov de 2008

"E sonhe enfim pensando sempre em mim..."

(Título: Boa noite, amor J.M. Abreu e F. Matoso)
.
Não será a primeira vez, sem dúvida não será. Ainda haverá muitas outras vezes em que o sono não virá, em que as horas da madrugada parecerão um pouco mais lentas, em que a noite parecerá ainda mais densa e silenciosa e que ficarás aflito e insone das lembranças. Mas como alguém poderá esquecer dos beijos que recebeu, da sua textura, do seu gosto, do seu tramitar? Como alguém poderá esquecer uma mão que em uma tarde qualquer de junho pousou sobre a sua e fez com que o medo e solidão aos poucos fossem embora? Como alguém poderá esquecer aquela manhã de domingo, sim aquela, em que se falhou o compromisso marcado por que decidiram fazer amor? Pensará ainda quantas vezes naquele vestido florido que deixava o vento desenhar o corpo que também era seu? Olhará sem perceber para a sala, buscando saber o que eu estaria fazendo. Ouvirá os barulhos das xícaras na cozinha, mas não sou eu, e nem estou cantando Janis enquanto organizo as roupas no armário. Você duvidará de uma suposta loucura, de um supérfluo desejo de viver com o que já não tem mais.
Mas te deixei presentes: deixei meus pés marcados na parede da sala, o tapete furado pelas cinzas do cigarro, um jogo de taças incompleto, espaços, muitos espaços na cama, no armário, na mesa. Deixei também um batom na pia do banheiro e dois livros na estante e muita, muita saudade.
A noite esfria mais um pouco. A noite não passa de uma boca faminta querendo nos devorar. Por vezes, o vento bate na janela, atravessa as frestas, soa, canta qualquer canção que não te faça dormir. O vento nem sempre é um bom amigo, o quarto nem sempre é um bom abrigo. Por fim esse momento não passa de um mal estar, de um querer estar em casa já estando, em um querer chegar em algum lugar da onde já se está partindo. Estamos todos entre o antes e o depois, o agora é breve bobagem, só está de passagem entre o lembrar e o esperar. Então lembre e espere, não se desespere, me guarde em um bom lugar.
.
.
(Cáh Morandi)

21 de nov de 2008

"Eu amo você, menina, eu amo você..."

(Título: Eu amo você - Tim Maia)


Outro dia peguei o João na creche. João é meu afilhado, lindo por sinal. Vínhamos de mãos dadas até o carro, percebi que ele queria me dizer alguma coisa, mas estava ainda pensado se diria ou não. Levei-o para fazer um lanche, com direito a sorvete no final. Gosto de respirar o mesmo ar que ele, um ar de inocência, de delicadeza, que às vezes quase perco a lembrança. Ele me fita, ri lambuzado do creme, conta dos amiguinhos, do que vai ser quando crescer, mas tem medo de dizer o que realmente quer.Voltamos em silêncio para sua casa, quando estacionei o carro e comecei a me arrumar para desembarcar, ele disse:
- Dinda, sabe a Giovana?
- Sim, tua coleguinha da creche?
- É... Dinda... Eu acho que estou amando ela.
Eu ri, talvez ele tenha pensado que eu ri delicadamente, mas não: minha primeira reação foi achar engraçado. Como um menino de 5 anos pode dizer que ama alguém? Amar alguém que provocaria um relacionamento? Depois parei com esse sarcasmo e minha ignorância me deixou tímida diante do meu afilhado. Como pude desconfiar de que talvez ele realmente a amasse, e ainda com mais pureza e verdade do que todos os amores que já tive? Como pude zombar das horas que ele passava antes de ir para aula escolhendo a maçã mais vermelha e madura para dividir com ela no recreio? Como pude não entender o por que dele me pedir uma camisa nova em vez de um brinquedo? Como não reparei que agora meu afilhado tinha olhinhos ainda mais brilhantes e felizes? Como não percebi que o cheiro forte de perfume não foi acidental, mas sim por que ele ia passar a tarde com uma menina chamada Giovana?
Ele era pequeno, mas não estaria livre desse perigo. Eu não poderia ser tão desumana e fazer ele desacreditar de que talvez um dia se casassem, que morassem juntos, que tivessem filhos.E se casassem? E se passassem a infância e juventude inteiras esperando um pelo outro? Se daqui 20 anos me convidassem para ser madrinha do primeiro filho? Eu não poderia, não seria capaz de cortar uma esperança, muito menos o primeiro amor do meu afilhado.
- Então você acha mesmo que ama ela?
- Sim, Dinda... Mas a mamãe disse que é bobagem.
- É que talvez sua mãe tenha medo. O amor é complicado... Até a gente que é grande não sabe lidar muito com isso.
- Mas então por que o amor existe se a gente não pode sentir?
.
.
(Cáh Morandi)