12 de nov de 2008

“Por que metade de mim é a lembrança do que fui, mas a outra metade eu não sei...”

(Título: Metade, Oswaldo Montenegro)

É mais ou menos isso que a gente fica quando alguém vai embora: metade. Metade de qualquer coisa que não tem nome, nem história ou comprovação científica, mas a gente sabe que existe, afinal perder é a forma mais próxima da real sensação do sentir. Sentir o cheiro que some aos pouquinhos dos lençóis, o ar descer mais pesado e empurrando essa tal de vida para dentro e depois para fora, sentir o mesmo vazio que o lado esquerdo do armário agora possui. Nunca estamos preparados para a hora do adeus, do até logo ou mesmo das despedidas que dispensam a ironia boba das palavras. Metade e às vezes nem isso. Com o tempo a vida nos ensina a acumular lembranças como quem coleciona discos ou selos postais, nos desencanta dessa bobagem de querermos ser sentimentais ou amorosos, mas não é tarefa fácil descartar as memórias e algumas pessoas também não querem aprender a serem menos humanas. Como se o fato de esparramar o passado no chão e escolher o que guardar ou não, nos deixasse mais limpos ou leves. Não. Talvez nos sentirmos sujos e pesados nos faça um pouco mais dignos, talvez não, e quem sabe não nos importa também, quem sabe não tenhamos vontade de descartar nada. A possibilidade de encontrar no meio desse lixo que fica, qualquer misera partícula de beleza e alumbramento, nos dá uma espécie de crença em nós mesmos. Uma crença em nossos deuses próprios. Uma crença de que no meio do lodo e da poeira, teríamos guardado qualquer coisa de bonito para ser encontrado. É preciso passar pelo tempo de se ficar só, é preciso estar no mais fundo do poço, é preciso ter mergulhado de cabeça no meio da nossa própria lama. Metade. Metade de uma ponte que nos leve para o outro lado. Metade de uma escada que nos tire do poço. Metade de um mapa que nos levasse ao tesouro. Metade é a necessidade de nos sentirmos inteiros. Metade é se conformar em ainda ter a companhia de qualquer coisa que foi embora.



(Cáh Morandi)

Um comentário:

Max da Fonseca, disse...

Eu não poderia ter lido este texto em hora mais oportuna... Eu que tanto sei das imperfeições de uma metade; eu que conheço do abandono e mestro na saudade.. apenas te digo que senti, entendi, gostei...



"Fecharam as janelas,
Levaram todos os móveis.

Todas as luzes apagadas.
As portas, todas trancadas.

A lareira sem fogo
É consolo nas cinzas.

Nada pareceu ficar
No vivo lar de muitas cores.

E em meio a escuridão,
Lamentos e saudades,

O amor ficou poeira
No chão da casa vazia."

(Max da Fonseca)